Labirintos #18
Sobre idade, paternidade e o Desafio Literário 2024
1. Um pouco sobre aniversários, reflexões e crises
Em 2024 eu completo 40 anos. Datas redondas inevitavelmente nos levam a fazer balanços sobre a vida e não escaparei das reflexões, ainda mais que os 40 virão com a maior de todas as mudanças que a vida proporciona: ser pai.
É difícil explicar exatamente o sentimento e não vou me arriscar a fazê-lo nessas poucas linhas, mas a responsabilidade de ser pai é algo realmente fascinante. Por conta disso, Bibiana e eu brincamos que nenhum dos dois pode ter crise de meia idade e poderei, no máximo, comprar um drone.
No mais, e ainda sobre paternidade, quem me conhece há mais de cinco minutos sabe o quanto sou discreto (alguns diriam fechado) sobre a minha vida pessoal. Logo, não estranhem se eu falar pouco sobre o neném. Serei o pai extremamente cioso da privacidade dele… Vocês me entendem…
2. Desafio Literário 2024
Uma das minhas tradições de fim de ano é o Desafio Literário. Definir doze categorias e escolher um livro para cada uma delas é diversão garantida para esse período. Este ano contei com sugestões da Bibiana para definir as categorias que vão abaixo. Com tantas mudanças que virão em 2024, não sei como será o tempo para as leituras, mas tenho certeza de que vai ser interessante acompanhar o Desafio.
Pois bem, a ele…
Um livro vencedor do Prêmio Oceanos.
Todo ano o meu Desafio tem a categoria “premiado”, escolhendo seja um livro, seja um autor premiado. Este ano optei pelo prêmio Oceanos, antigo Portugal Telecom, que premia autores de língua portuguesa. Lerei Cinzas do Norte do amazonense Milton Hatoun, vencedor de 2006 (aliás, o livro também venceu o Jabuti de melhor romance no mesmo ano).
Um autor da África Oriental.
Outra categoria que aparece todo ano é a “geográfica”. Escolher um país, um idioma, um povo. Este ano decidi olhar para os países da África Oriental em busca de literaturas menos óbvias. Escolhi Sobrevidas do tanzaniano Abdulrazak Gurnah, vencedor do Nobel de Literatura de 2021.
Um poeta inglês.
Poesia é outra constante no meu Desafio Literário. Escolhi Canções de Inocência e de Experiência do William Blake em edição da Assírio Alvim que comprei (sorte minha) na Livraria da Travessa aqui no Rio. Blake é um dos mais interessantes autores ingleses e seus livros proféticos mesclam brilhantemente poesia e iluminuras. Gosto demais e recomendo.
Uma peça de teatro modernista.
Minha relação com teatro é engraçada. Gosto muito de ler teatro, mas não gosto de vê-lo encenado. Não me perguntem por que, maluquice mesmo. Para o Desafio 2024, vou de Um inimigo do povo do norueguês Henrik Ibsen, um dos introdutores do realismo no teatro moderno.
Uma releitura.
Revisitar leituras antigas é comparar as sensações de cada uma, redescobrir significados que antes não havia visto. Em 2024, minha releitura será de O cavaleiro inexistente, parte final da trilogia Os nossos antepassados do italiano Italo Calvino. Aliás, se você não conhece Calvino, recomendo fortemente!
Uma editora independente.
Defender as pequenas editoras é uma das mais importantes formas de se garantir a pluralidade de vozes. Para além dos grandes grupos editoriais há muita gente publicando livros bacanas, seja em casas maiores como a Editora 34, ou em pequenas como a Dublinense, Antofágica, Tabla e tantas outras. Escolhi Homens em guerra do húngaro Andreas Latzko, publicado pela Carambaia, uma das minhas editoras independentes favoritas.
Um livro com o tema paternidade.
Se eu tenho uma convicção para 2024 é que o meu menino vai mudar tudo: nossa rotina, nossos objetivos, minhas certezas… Sei também que quero ser o melhor pai que conseguir e isso passa, claro, por ler sobre educação de crianças. O primeiro livro (e que entra nesse Desafio) será Educação não violenta de Elisama Santos.
Um livro de artigos.
A ideia é ir além da ficção e explorar algum tema ou autor que desperte interesse. Escolhi A la intemperie, coleção de artigos de jornal, discursos e ensaios de Roberto Bolaño, uma chance para explorar além do ficcionista e, de quebra, praticar o meu espanhol.
Um livro ganho de presente.
Discutindo sobre as categorias para o Desafio Literário 2024, Bibiana e eu chegamos à conclusão que as pessoas raramente me dão livros de presente, o que pode parecer, à primeira vista, estranho. No entanto, é compreensível que as pessoas tenham dificuldades de escolher o que dar para alguém com uma biblioteca que chega aos mil volumes (e olha que moramos em um apartamento pequeno; imagina se tivéssemos espaço)… Dito isso, a minha sogra é uma que jamais se intimida, para a minha sorte, e me presenteia com livros. Então, em 2024, lerei Tempo de Solidão, primeiro volume de A ferro e fogo, saga regionalista de Josué Guimarães.
Um autor LGBTQIA+.
Há muitos anos uma amiga disse que a minha literatura cheirava a uísque e charutos, uma crítica à minha preferência por autores brancos, héteros e arrogantes (Borges é meu autor favorito, afinal de contas)… Lembro sempre daquela crítica quando penso no Desafio e me esforço por mais representatividade. Em 2024, vamos de O uruguaio novela curtinha do autor argentino radicado na França Copi. Para quem não o conhece, recomendo pesquisar sobre o autor.
Um clássico do pensamento ocidental.
Mais um para a prateleira de não ficção. Escolhi A origem da desigualdade entre os homens do suíço Jean-Jacques Rousseau, um desses textos que todo mundo cita sem ter lido.
Um livro comprado em viagem.
Segundo a Bibiana, eu estou com dificuldade de sair de Praga. Já falei um pouco sobre a cidade aqui e possivelmente ainda escreverei mais, assim que passar o meu caderno de viagem a limpo. Pois então, nada melhor que ler Stories from Old Jewish Prague que compramos na lojinha do Museu Franz Kafka, onde, aliás, tivemos enorme dificuldade de manter a razoabilidade e não sair comprando tudo.
Então, é isso. Se você, caro leitor, quiser seguir o desafio, me conte quais os livros que escolheria. E ótimas leituras para 2024.
3. Ainda sobre 2024
Este ano de 2023 foi um ano complexo, com algumas notícias maravilhosas (não preciso nem dizer quais, né) e outras bem complicadas. Não sei exatamente por que, mas tendo a achar que anos ímpares são mais difíceis. Coincidência ou não, vasculhando os textos blog que tive de 2011 a 2014, me deparei com uma postagem de maio de 2013 comentando sobre as dificuldades dos anos ímpares. Terminei aquele post com um poema do Leminski (1987, tende piedade de nós) que fala exatamente sobre isso.
O poema é por demais melancólico para finalizar esse post (prometo que ele virá em um Porque Hoje é Sábado futuro), então prefiro terminar com a esperança em alta, lembrando que ali logo depois da esquina nos espera mais um ano par.
Um feliz 2024 a todos e muito obrigado por acompanharem esses labirintos.



