Labirintos #20
Sobre leituras, Dom Sebastião e o assassinato de César
1. Um retorno e comentários sobre minhas leituras
Meus amigos… Sei que essa newsletter tem andando um pouco bissexta, mas, como podem imaginar, esse negócio de trabalhar, preparar casa para a vinda do neném e, além disso, ter uma vida e manter as leituras em dia acabam não deixando muito tempo para a escrita.
Sem promessas de perfeita assiduidade, seguirei por aqui falando sobre as minhas leituras, música, filme e Rio de Janeiro.
Nessa toada, vão aí uns curtas…
Em Fevereiro li o sensacional Brancura do Nobel Jon Fosse, novela curtinha com uma escrita incrível e uma permanente atmosfera onírica. A edição da Editora Fosforo tem um projeto gráfico simples e elegante que combina muito com o livro. Do mesmo autor, eu já havia lido É a Ales, publicado pela Companhia das Letras e gostado muito. No início de Março, aliás, a Companhia lançou Trilogia, aumentando o catálogo do norueguês publicado aqui no Brasil.
Ainda em Fevereiro li Otras Inquisiciones, livro de ensaios de Jorge Luís Borges publicado em 1952, logo entre El Aleph e El Hacedor. Foi interessante ler Otras Inquisiciones depois de ter lido o Curso de Literatura Inglesa e ver (re)visitadas as grandes influências literárias do argentino, como Coleridge, Wilde, Kafka… Os livros de ensaios do Borges são interessantes, mas não recomendáveis para o leitor casual ou mesmo para quem que começar a conhecer a sua obra; são exercícios de erudição muitas vezes difíceis. Nota à margem, me arrisquei na edição em espanhol, o que é sempre um desafio adicional. Valeu a pena, mas não foi uma leitura fácil.
Do meu Desafio Literário, li Cinzas do Norte do Milton Hatoum e gostei bastante. Admito que ficarei devendo a resenha, mas faço questão de recomendar fortemente a leitura.
Esta semana, comecei Poeta Chileno do Alejandro Zambra e estou gostando muito. Dele eu li Bonsai e Formas de voltar para casa. Bonsai, um texto de difícil classificação, é das coisas mais bonitas e sensíveis que já li (apesar de uma amiga chilena dizer que é só um pastiche do conto Tantália do Macedônio Fernandes).
2. Ainda sobre minhas leituras e Dom Sebastião
Pergunte a um português sobre Dom Sebastião e é quase certo de que a resposta será que o Rei morreu na Batalha de Alcácer Quibir em 1578, mas que seu corpo nunca foi encontrado. Provavelmente essa pessoa dirá que aprendeu isso na escola, assim como aprendeu que o mito do retorno do rei e todo o movimento Sebastianista surgiu por conta desse desaparecimento dos restos mortais.
Pois é exatamente sobre a gênese dessa narrativa que se debruçou o historiador português André Belo nesse estudo histórico com ares de investigação policial sobre o qual eu já havia comentado no último número da Newsletter.
Na primeira parte do livro, Belo se dedica a demonstrar a inquestionável morte do rei Dom Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir para, em seguida, encerrar qualquer dúvida sobre a efetiva identificação dos restos mortais do monarca e seu translado desde o local da batalha até o descanso final no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, recorrendo a diversas fontes primárias, como depoimentos de nobres sobreviventes da batalha e documentos públicos sobre o translado do corpo.
Nesse esforço de refutação do mito, mostra o trabalho consciente e constante de criação de uma narrativa que pudesse causar dúvida sobre a morte e, posteriormente, a identificação do corpo do Rei, atendendo a interesses políticos e sociais.
Afastadas as dúvidas sobre o destino do rei, o autor traça uma história do mito Sebastianista, desde os momentos imediatamente posteriores à Batalha até sua feição nacionalista no início do Século XX, mostrando que o mito morre e renasce em Portugal aos sabores das mais diversas conveniências, permanecendo um forte elo de identificação cultural do povo português. Esse força do mito impede, até hoje, a exumação do corpo do rei para, por exemplo, a realização de testes de DNA que comprovariam com relativa facilidade a identidade dos restos mortais inumados nos Jerónimos.
Abre parênteses. É importante não esquecer do contexto histórico que vê nascer o movimento Sebastianista: após a morte do rei, o trono passa a seu tio-avô cardeal Dom Henrique I que não possui herdeiros legítimos (ênfase no “legítimos”). Com a morte de Dom Henrique, após uma curta crise dinástica que opõe diversos nobres (inclusive pretendentes ao trono como D. António, prior do Crato), Portugal passa a ser governado pelo Rei Felipe II de Espanha, unindo-se, assim, ao Império Espanhol, então a maior potência europeia. Fecha parênteses.
Na segunda parte do livro, o autor se debruça sobre a primeira grande impostura Sebastianista: a aparição de um alegado Dom Sebastião em Veneza vinte anos após a batalha. Apesar de tratar-se claramente de um impostor que não se parecia minimamente com o rei e nem sequer falava português (pois era calabrês), a história desse falso Sebastião mobilizou redes políticas e diplomáticas de Veneza, Florença, Portugal e Espanha. Defendido como o verdadeiro Rei por um grupo aguerrido de portugueses, o calabrês serviu, consciente ou inconscientemente, à exploração política (e até religiosa) dos reinos da Europa Ocidental que mediam forças e disputavam a hegemonia regional no fim do século XVI e início do XVII, aliando-se ou opondo-se à Espanha.
O estudo novamente vai buscar nas fontes primárias a história desse falso Dom Sebastião e as teias de interesses políticos, dinásticos e econômicos que justificaram a criação de uma tão duradoura impostura.
Esse ponto, aliás, é o mais interessante da segunda parte. Demonstrar o que havia por trás da máquina de fake news que tentou transformar um calabrês em Dom Sebastião de Portugal, comprovando que nada havia de inocente ou orgânica, mas sim que atendia a interesses maiores.
Para os nossos tempos, ficam algumas lições interessantes que vão além do estudo histórico sobre um pouco conhecido rei português: as fake news não são uma novidade da era das redes sociais e mentiras são usadas para guiar (ou tentar guiar) emoções populares e suas opiniões desde sempre. Os meios de propagação de histórias falsas podem ter se aperfeiçoado, tornando menos nítidos os limites, mas o costume de falsear não é novidade.
Um belo livro para quem se interessa por história e política. Recomendo.

Morte e Ficção do Rei Dom Sebastião
André Belo
Tinta da China Brasil
1ª Edição, 2023
288 p.
Nota 9/10.
3. Os humores da massa, ou sobre um monólogo
Ontem, dia 15 de Março, fiz o meu post anual no Instagram sobre o assassinato do general romano Julio César. Nos Idos (dia 15) de Março do ano 44 a.C., um grupo de conspiradores pôs fim às ambições do brilhante general que pretendia governar Roma como ditador perpétuo.
César é uma personalidade incontornável na história (possivelmente só perde em popularidade para Jesus e Maomé) e já inspirou absolutamente todo tipo de manifestação artística, dentre elas a peça de Shakespeare encenada pela primeira vez em 1599.
A peça foi fundamental na criação e fixação de alguns mitos sobre César, como, por exemplo, a cena em que o general, ao morrer, dia “et tu Brutus”, dirigindo-se ao filho adotivo que tomara parte na conspiração para matá-lo (o que é, convenhamos, completa invenção, pois dificilmente ele teria fôlego para dizer algo sendo esfaqueado mais de vinte vezes, a maioria nas costas).
Mas o meu momento favorito é o discurso que o General Marco Antônio profere no enterro de César. Esse monólogo é um dos mais incríveis do Shakespeare e mostra como um discurso bem pensado e feito tem poder de mudar os ânimos do povo que, ao ouvir Brutos odiava César e, após o discurso, passa a odiar os seus assassinos. A ironia com que Marco Antônio se refere a Brutus e aos demais conspiradores é coisa de gênio.
Encerro a Newsletter com o grande Damian Lewis recitando esse monólogo em vídeo gravado para a comemoração dos 400 anos da morte do Bardo.


