Labirintos 25
Leituras da madrugada, meu Desafio Literário e William Blake
1. As leituras da madrugada
Desde que o João nasceu, o tempo para as leituras tem sido, como se pode imaginar, escasso. Tentando contornar isso, tenho lido nas madrugadas insones enquanto ele dorme no meu colo ou quando estou no meu “plantão noturno” entre fraldas e mamadeiras.
Tem sido curioso explorar essa Sessão Corujão de leitura e acabei tendo de fazer algumas adaptações… Os calhamaços deram lugar a livros menores, de preferência com capítulos curtos que caibam nos intervalos de sono do neném e o Kindle passou a fazer parte da minha rotina. Deixei os textos excessivamente áridos para outro momento e me permiti alguns livros que são puro e simples entretenimento, um respiro nesses dias de rotina mais pesada.
2. O libelo pacifista de Andreas Latzko. Umas poucas linhas sobre Homens em Guerra
Nessas últimas semanas o plantão noturno rendeu boas leituras.
A primeira foi Homens em Guerra do húngaro Andreas Latzko que eu havia escolhido para a categoria Editora Independente do meu Desafio Literário 2024 (se ficou curioso com o Desafio, é só clicar aqui).
Publicado em 1917 na Suíça, o livro reúne seis contos curtos que exploram experiências dos soldados austro-húngaros no front do Rio Isonzo, onde se bateram contra o real exército italiano, em uma série de batalhas que terminaram com milhares de mortos e pouco ou nenhum ganho territorial para ambos os lados. O front do Isonzo é, aliás, a campanha que inspirou o enredo de Adeus às armas do Hemingway.
Porém, ao contrário da literatura cheia de testosterona do americano, Homens em Guerra explora as fragilidades dos homens que participaram do conflito. O tom dos contos é intensamente anti-belicista, denunciando os horrores da Guerra e os efeitos terríveis enfrentados pelos sobreviventes.
O conto A Partida, que abre o livro, explora as consequências do chamado shell shock (ou síndrome do stress pós-traumático) em um tenente da reserva que recebe a visita da esposa no hospital onde se recupera de ferimentos. O autor descreve com enorme crueza e realismo o trauma psicológico, a consequente alienação do tenente e a perspectiva da futura inadequação à vida civil e seus efeitos sobre as famílias dos combatentes.
Os contos Batismo de Fogo, O Companheiro - Um diário e A Morte de um herói retratam o processo de desumanização, a transformação do homem em máquina de matar. O segundo, aliás, é de todos os contos aquele com o mais claro tom crítico à política que desencadeou o conflito e aos entusiastas da guerra.
Doentes são os outros. Doentes são aqueles que lêem notícias de vitória com os olhos radiantes e enxergam quilômetros quadrados conquistados sobre montanhas de cadáveres, aqueles que esticaram, entre si e a humanidade, uma parede de pano colorido, a fim de não saber que crimes estão sendo cometidos do outro lado - que eles chamam de “o front” - contra seus iguais.
LATZKO, Andreas. Homens em Guerra, p. 97
O desprezo pelos generais, vistos como aristocratas covardes que mandam homens aos milhares para a morte desde seus QGs em castelos medievais ou simpáticas cidades é o mote do excelente O Vencedor, o meu conto favorito do livro, em que o autor desenha um retrato ácido do comando do Exército:
Na verdade, já estava disposto a pedir baixa, absolutamente farto da diversão barata de se portar como Nero no campo de treinamento e tiranizar os jovens oficiais. E daí veio o milagre! Num piscar de olhos, o velho rabugento tinha se transformado num tipo de herói nacional, uma personalidade europeia, tinha se tornado ‘O Vitorioso de ***’
LATZKO, Andreas. Homens em Guerra, p. 81
O conto final, A volta para casa, é um testamento sobre as dificuldades de readaptação dos soldados à vida civil. As marcas (tanto físicas quanto emocionais) os acompanham depois de encerrado o conflito e voltar para casa pode ser tão traumático quanto lutar no front.
Pioneiro dos relatos sobre o conflito, Homens em Guerra tem como grande mérito conseguir ser literatura engajada sem perder a qualidade literária. Latzko combina o realismo e a crueza das descrições com o bom uso do fluxo de consciência criando personagens atormentados, psicologicamente quebrados, demasiadamente humanos, adiantando muito do que seria produzido a seguir como Nada de novo no front do Erich Maria Remarque, talvez o mais famoso romance sobre a Primeira Guerra Mundial ou o excepcional As Brasas escrito pelo também húngaro Sándor Márai.
No fim, Latzko não precisa militar pela paz; a realidade de seus relatos faz o trabalho por ele. Uma bela leitura que recomendo fortemente.
Homens em Guerra
Andreas Latzko
Carambaia
Coleção Acervo
2ª Edição, 2019
152 p.
Nota 9/10
3. De Viena à Guanabara, ou minha cidade é o centro do mundo
A história e a memória têm uns caminhos interessantes. Ler Homens em Guerra me fez pensar em Viena, uma cidade fascinante, e sua nem sempre lembrada conexão com o Rio de Janeiro.
A conexão é a Imperatriz Maria Leopoldina, esposa de Pedro I. Nascida no Palácio de Hofburg em Viena, membro de uma das mais poderosas famílias nobres da Europa (os Habsburgo), Leopoldina, por conta de interesses recíprocos de Áustria e Portugal, deixou a belíssima capital imperial para morar com o marido, o grosseirão Pedro I no Rio de Janeiro onde a família real portuguesa ainda vivia, mesmo após a derrota de Napoleão.
Maria Leopoldina exerceu uma fundamental força civilizatória na corte luso-brasileira e sua influência na independência do Brasil não é suficientemente reconhecida pela nossa historiografia. Dizem que se encantou com a cidade e suas belezas, tendo adotado o Brasil como sua pátria. Sua morte prematura, possivelmente causada por agressões sofridas do marido, é um capítulo triste da nossa história.
4. Porque hoje é Sábado
Outra leitura das madrugadas foi Songs of Inocence and of Experience do poeta e ilustrador inglês William Blake (1757-1827).
Blake é uma dessas figuras inclassificáveis que surgem uma ou duas vezes por geração. Sua obra não se enquadra exatamente em nenhum movimento literário, mesmo sendo contemporâneo do romantismo.
Songs of Inocence and of Experience é uma coleção de poemas ilustrados publicada em 1794.
Escolhi para esse PQHES The Tyger, poema incontornável da obra de Blake. O Tigre do poema (e aqui me socorro das lições de Jorge Luís Borges em seu inestimável Curso de Literatura Inglesa) simboliza o Mal e o poeta, deslumbrado com o Tigre, indaga como Deus pode criar o Tigre (o Mal) e o Cordeiro (Jesus) que seria devorado pelo Tigre, eterno debate sobre como Deus onipotente e onisciente permite a existência do mal.
Escolhi a versão ilustrada do poema que consta do livro, refletindo toda a experiência de ler William Blake.






